Os clientes da pornografia na web de todo o mundo estão sendo policiados

“Se você estiver assistindo pornografia online em 2017, mesmo escondido, é bom se acostumar com a ideia de que em algum momento o seu histórico pornô pode ser revelado publicamente, e com seu nome embaixo”, anunciou Thomas em um post entitulado “A Pornografia Online Pode Originar o Próximo Grande Escândalo de Privacidade”, escrito pouco tempo depois de seu encontro.

A justificativa de Thomas era mais ou menos esta: seu navegador (Chrome, Safari etc) tem uma configuração única, e transmite informações que podem ser utilizadas para te identificar enquanto você navega pela internet. Você está basicamente deixando “pegadas”, como Thomas as chama (outros preferem “impressões digitais”), por todos os sites que visita. Assim, resta apenas ligar uma pegada a outra — um expert poderia identificar os mesmos sinas em visitas ao Facebook e ao NYTimes.com quanto ao Pornhub e ao Xvideos.

Thomas argumenta que “quase todo site tradicional que visitamos salva dados suficientes para ligar sua conta de usuário à identificação do seu navegador, seja diretamente ou por terceiros”. Ele está definitivamente certo quando diz que a maioria das páginas que você visita (não apenas sites pornôs, é claro) possuem programas de rastreamento que mandam seus dados para empresas terceirizadas, muito provavelmente sem sua permissão. Muitas dela, por exemplo, usam o Google Analytics, utilizado para monitorar o tráfego em páginas da web. Outras utilizam botões de “compartilhar” e empresas de propaganda terceirizadas.

Portanto, se por exemplo clicássemos no vídeo “Fetiche de Couro #3” no XNXX, não estaríamos apenas enviando uma solicitação para um site pornô. Estaríamos mandando uma solicitação para o Google, para a empresa AddThis, e também para uma empresa chamada Pornvertising, mesmo se estivéssemos navegando no modo privado. Também estaríamos enviando dados que poderiam ser utilizados para identificar nosso computador, como o endereço IP.

Tudo isso, somado à ascensão dos ataques de hackers, diz Thomas, significa que um catálogo completo dos hábitos pornográficos de cada indivíduo está constantemente em perigo, e pode facilmente vir a público. Thomas acredita que não é apenas possível, mas sim muito provável que um hacker invada o banco de dados que abriga o histórico pornô de toda a internet.

Isso, é claro, tem uma série de implicações perigosas, e que vão muito além da humilhação de um consumidor de pornografia — se você pensa que apagar seu histórico da internet deleta todos os rastros daqueles vídeos de fetiche por pés ou os desenhos de bestialismo, pense de novo. O pior de tudo é que ainda existem muitos lugares onde as pessoas são perseguidas por suas orientações sexuais. Se um governo opressor descobrisse que um de seus cidadãos assistiu a uma série de filmes pornôs gays, essa pessoa estaria correndo um enorme risco.

O Pornhub foi o único site pornô que respondeu nossas mensagens. Sua resposta afirmava que as conclusões de Thomas “não eram apenas completamente falsas, mas também perigosamente enganosas”. Em sua longa e passional refutação, o Pornhub apontou a vasta quantidade de espaço livre necessário para guardar o histórico de seus usuários — eles recebem mais de 300 milhões de solicitações por dia, e segundo seus cálculos, seria preciso um espaço de 3.600 terabytes para guardar todas essas informações. Sem mencionar que checar todas esses dados seria praticamente impossível e extremamente demorado. “Os logs de servidor do Pornhub guardam o IP e o agente de usuário por um curto período — nunca a identificação de navegador dos clientes”, escreveu um porta-voz do Pornhub por email.

Independente disso, todos os pesquisadores e especialistas em segurança online que entrevistei concordam que as práticas dos consumidores de pornografia não são tão sigilosas quanto eles acreditam, mesmo que eles não acreditem na ideia de um apocalipse pornô defendida por Thomas.

“Eu acredito que essa é uma preocupação completamente justificada”, disse Justin Brookman, um especialista em privacidade do Centro de Democracia e Tecnologia. “O modo de navegação privada não cancela os mecanismos de monitoramento”. Em outras palavras, mudar o seu navegador para o modo privado e limpar seu histórico não impedem que as empresas de pornografia saibam o que você está fazendo.

Para se ter uma ideia do que é, de fato, esse monitoramento, eu usei um app chamado Ghostery, que identifica e bloqueia programas de monitoramento instalados em páginas da internet, para investigar os cinco maiores sites pornôs da internet — o XVideos, o XHamster, o Pornhub, o XXNX, e o Redtube. (É importante frisar a influência desses sites: de acordo com o Alexa, um serviço de análise, o XVideos é o 43º site mais visitado do mundo. Para se ter uma ideia, o Gmail é o 66º. O Netflix, o 53º.)

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